quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Profissão Teólogo


No dia 30 de Novembro, o Brasil comemorou o Dia do Teólogo. Nesse contexto reflexivo cabem algumas perguntas interessantes – eu gosto muito das interrogações, porque mais importante que saber as respostas, é saber quais perguntas devemos (ou podemos) fazer.  Entre essas perguntas, existem duas que considero não somente interessantes, mas extremamente importantes, para que a nossa reflexão possa avançar.



São elas:
1.   Teólogo por quê?
2.   Teólogo para quê?

Conversando sobre a primeira pergunta
A resposta para a primeira pergunta: 'Teólogo por quê?' é subjetiva, e, evidentemente, eu só poderia responder essa pergunta baseada nos meus ideais. É claro que muitos candidatos a Teólogos chegam à academia, cheios de ideais (espirituais), confundindo facilmente a Teologia com a religião, e entre os objetivos principais da escolha de um candidato pela Teologia, está a doce ilusão pelo 'conhecimento profundo da Palavra de Deus'. Nessa busca profunda pelo ‘conhecimento profundo da Palavra de Deus’, estão embutidos vários interesses e conceitos. Esses interesses podem ser, entre outros, inocentes, infantis, ou arrogantes. Em algumas pessoas, aparecem os três casos ou mais.

Os inocentes
Os inocentes se decepcionam e não duram muito, logo vão embora, com medo de ‘perder a fé’. Dado a esse fato, sempre questiono: Se o conhecimento faz alguém perder a fé, é porque, fé esse alguém não tinha. E se não tem, não pode perder. Ninguém perde o que não possui.
Os Arrogantes
Os arrogantes pensam que sabem mais que todos. Inclusive, eles/elas pensam que os professores sabem menos que eles. Os arrogantes pensam que vão aprender muito, e que vão ficar melhores e mais sábios que todos à sua volta. Mas o pior arrogante entre os arrogantes são aqueles que por pensarem saber mais que os professores, passam meses, e até anos, envolvidos em embates e polêmicas inúteis, atrapalhando o curso da aula, e atrapalhando os que querem ouvir e conversar – teologar – para aprender. Os arrogantes são os verdadeiros servos inúteis, dos quais a bíblia nos fala. Esses classificam tudo como sendo ‘obra do diabo’, inclusive a Teologia e os Teólogos, e se dizem guerreiros, soldados de Cristo, empunhando uma ‘espada apologética’ enferrujada, tentando matar a todos e a tudo que não convergem com aquilo em que ele ou ela acreditam, e seguem numa batalha desesperada, tentando ‘blindar’ a bíblia por todos os lados, com um furioso e até mesmo, com um rancoroso discurso de ser ‘o guardião, ou, a guardiã da sã doutrina’.

Os infantis
Os infantis pensam que vão aprender tudo e sanar todas as suas dúvidas. Ledo engano! Mas, se sobreviverem ao conhecimento que desvenda mitos e lendas, que revela a verdade e lança luz sobre alguns mistérios, através da hermenêutica, e de outras disciplinas, esses amadurecem, perdem a fé cega e infantil que ‘emburrece’, crescem e dão frutos, porque, com a fé fortalecida e com a crença, agora adulta, podem caminhar livremente. Livres do fundamentalismo, dos preconceitos, das doutrinas, das manipulações... E se tornam capazes de construir os seus próprios pensamentos, porque conseguem Teologizar – Construir as suas próprias Teologias, além de ler e interpretar as Teologias já existentes, e, até mesmo, desconstruir não somente muitos equívocos teológicos, mas, repensar e re-significar algumas teologias. Muitas delas, hoje, ultrapassadas.
Aqueles que estão humildemente 'antenados', logo aprendem que sairão da academia com muito mais dúvidas do que quando entraram. Isso muitas vezes choca a nossa infantilidade. Há outra coisa que fica muito clara também no inicio: A Teologia é uma busca profunda e constante – pesquisa séria – e o nome do curso deixa isso muito claro: ‘Bacharelado em Teologia’. Portanto, um ‘Bacharel em Teologia’, é um pesquisador. Não se faz Teologia sem pesquisas. O Teólogo que não lê e não pesquisa, pode desistir da profissão ou do título de Teólogo. Outra situação que o teologando (estudante de Teologia), percebe logo nos primeiros meses de trabalho na academia, é que a Teologia se aprende estudando e teologizando, ou seja, fazendo e produzindo Teologia. O que nos leva ao entendimento de que o Teólogo será sempre um teologando. Ninguém está pronto.  O que é muito positivo, pois em um copo cheio, não cabe mais nada, e muitas vezes, é necessário esvaziar o copo. Mas nem todos têm essa percepção.
Conversando sobre a segunda pergunta: ‘Teólogo para que?’
Esse deveria ser o primeiro questionamento que um candidato ao Bacharelado em Teologia deveria se fazer, junto às suas variantes:
1-  Para quê eu quero ser um Teólogo? (percebam que eu formulei a pergunta com ‘para quê? ’ e não ‘por quê? ’ – Há uma enorme diferença!);
2-  Para que serve o Teólogo?
3-  Para quê mais um Teólogo?
Cabem nesse contexto muitas perguntas, e, talvez você esteja questionando agora: porque ele não perguntou: ‘Para que, isso?’ ou, ‘Para que, aquilo...?’ Bem, talvez a resposta seja: Eu não pensei em o que você está pensando, ou, eu não considero tal ou tais perguntas relevantes. Mas com certeza, a minha resposta para você é: por uma questão de bom senso acadêmico, eu não pretendo esgotar o assunto. Contudo, mais importante que não esgotar o assunto, é: Dar-lhes elementos para pensar e para questionar. É isso que a Teologia faz, e é para isso que serve um Teólogo, entre outras coisas. Seria muita ingenuidade da nossa parte, em qualquer que seja a área do conhecimento, buscar esgotar um assunto de uma só vez.
Antes de prosseguir quero chamar a sua atenção para que observe que o verbo ‘construir’, aparece no texto, repetidas vezes e com certa insistência. Isso por que, considero que um Teólogo é um ‘engenheiro’, cuja função é construir principalmente pontes e estradas nos relacionamentos humanos, e desconstruir (implodir), ruínas e estruturas que comprometem a segurança dos seres humanos. Apesar de que a palavra Teologia, literalmente traduzida significa estudo à cerca de Deus, ou, das coisas de Deus – Teo = Deus, Logia = Estudo, conhecimento - a Teologia é uma Ciência Antropológica.
É impossível tentar conhecer a Deus e as suas coisas, ignorando o homem. Uma ótima definição do que é a Teologia, que ouvi na academia, e que tomei para minha vida acadêmica e intelectual, é: “A Teologia são tentativas humanas de entender a Deus”. Por isso, um Teólogo dispõe de duas ferramentas importantíssimas para o seu trabalho.

A primeira ferramenta é a Razão – o raciocínio e o discernimento – (Rm 12.1), e esses devem vir acompanhados do bom senso, da temperança, da paciência, da boa vontade, da perseverança, do Amor... Isso lhe parece familiar? É claro que isso lhe é familiar. Os Apóstolos Paulo (na Epístola destinada aos Gálatas) e Pedro (em sua Segunda Epístola) nos escreveram falando sobre essas atitudes. E por que nos escreveram eles, sobre isso? Porque aprenderam de Jesus, que aprendeu de Deus, que sabe o que é melhor para nós.

A segunda ferramenta é a Bíblia – Não se faz Teologia Cristã sem a bíblia. É sobre a bíblia que são feitos os questionamentos hermenêuticos, exegéticos, históricos, homiléticos, apologéticos...
Entretanto, esses questionamentos não podem ser cegos, passionais, irracionais, irreflexivos, intransigentes, intolerantes, pessoais, fundamentalistas, extremistas, radicais...

A bíblia não precisa da nossa blindagem, assim como Deus não precisa que tomemos as suas ‘dores’ – Ele tomou as nossas. Lembra-se? – ‘Deus pode aguentar muito bem essa parada’. Nós é que não aguentamos, e por isso saímos por aí brigando com todo mundo e com todo o mundo, colecionando inimigos e antipatias gratuitamente, e com isso, desperdiçamos a oportunidade de Evangelizar, de transmitir a Paz de Cristo e o Amor de Deus. Com nossas atitudes negativas, perdemos a oportunidade de ajudar as pessoas e acabamos transformando o Cristianismo em religião indesejável, abominável e de quinta categoria.
Ser Teólogo
Ser Teólogo é descortinar o impossível! Não falo aqui, de Deus, mas, das grandes tempestades trazidas pelas religiões que não foram criadas por Deus (nenhuma delas), mas sim, por seres humanos. Somente um Teólogo descomprometido com a religião e com a religiosidade cega e parcial, que geralmente é irracional, pois vêm carregadas com emoções e sentimentos humanos, pode combater e tentar desconstruir os conceitos negativos gerados pelos 'predadores do Evangelho', que, com as suas pregações desvairadas, suas hemenêuticas toscas, e com as suas doenças emocionais, bem como, com as suas faltas de conhecimento teológico (mesmo que possuam um diploma, ou certificado de teologia), e também com as suas ambições desonestas que manipulam os versículos bíblicos e se aproveitam da fé cega e infantil dos desavisados para pregar prosperidade e ganhar dinheiro.
Ser Teólogo é sofrer a ingratidão da igreja, corpo e instituição, e o não reconhecimento da sociedade, de forma que em sua vida, o Teólogo é quase um ‘patinho feio’: Não encontra um lugar para viver e conviver com os outros, até que descubra a beleza de ser Teólogo, e se assuma com tal, em meio às intempéries e desconfianças.

Ser Teólogo é assumir as suas posições, e não se colocar em cima de um muro, ou se camuflar como um camaleão, de acordo com o ambiente. Mas para isso, terá que pagar um preço alto, e amargar rótulos tais como: Herege, Libertino, Desobediente, Servo do demônio, Anti-Cristo... E ser ostracizado, muitas vezes, literalmente banido e exilado.

Ser Teólogo é não poder exercer a profissão, porque, apesar de que agora a Teologia já é reconhecida como profissão, a ‘Profissão Teólogo’ não é reconhecida nem pela Igreja, muito menos pela sociedade. Lembro-me do dia em que Júlio Zabatieiro, disse na aula de ‘Religião, Modernidade e Desencanto’ no curso de Pós-Graduação em Ciências da Religião: “- O Teólogo é mais importante que o Sacerdote”. Por um instante, os meus olhos brilharam como os de uma criança em frente a uma vitrina cheia de doces. Mas logo em seguida ele disse: “- Entretanto, o sacerdote vem em primeiro lugar na preferência popular, pois o povo rejeita o Teólogo, em detrimento do Sacerdote”. Isso se reflete na sociedade de uma maneira geral, e, embora a importância do Teólogo seja de vital valor em vários âmbitos, e o mesmo deveria ser consultado em diversos momentos que envolvem o ser humano, e a sociedade inclusive com análise antropológica, é muito comum ver muito mais Teólogos procurando emprego, do que qualquer outro profissional da área de Ciências Humanas e Sociais. O Teólogo é aquele que não ganha dinheiro com a profissão, e é o profissional que mais trabalha fora da sua área. Ele faz tudo, menos Teologia.
O Teólogo é um Cientista Social, porque a Teologia não é religião. Teologia é Ciência. Ciências Sociais - Ciência Humana.


Pense: Teólogo para quê?
Penso que o Teólogo é para ser diferente e fazer a diferença. Buscar a unidade da igreja com a Igreja. Teólogo para promover o ecumenismo entre Cristãos, ‘afim de que todos sejam um’, como O Pai é no Filho, também sejamos nós n’Eles, e uns para com os outros. Teólogo para construir pontes entre a igreja (instituição) e a sociedade. Teólogo para ajudar na construção de uma Igreja (corpo de Cristo) sadia e saudável, com menos doenças causadas pela religiosidade e pela ignorância bíblica. Teólogo para desconstruir as trincheiras, os muros e as muralhas construídas pela igreja e pela Igreja diante da sociedade, do conhecimento, da ciência... Diante do mundo, diante de tudo porque cometeram muitos erros de hermenêutica, não fizeram as exegeses corretas e se separaram do ‘mundo’. Teólogos e Teólogas para construir, para amar, para orientar, para instruir, para ensinar e para aprender. Teólogos e Teólogas para protestarem contra as injustiças e mazelas sociais, contra as injustiças e mazelas das e nas igrejas (instituições). Teólogos e Teólogas para protestarem contra as igrejas evangélicas e suas doutrinas miseráveis, pobres e opressoras que estão distorcendo o Evangelho de Cristo, manchando o Cristianismo e adoecendo as pessoas... Teólogos e Teólogas para fazerem a diferença em um mundo conturbado, cheio de violência e desgraças (literalmente fora da Graça Divina). Teólogos e Teólogas para resgatarem o Cristianismo e o Protestantismo, e não para serem mais um a distorcerem a ‘Palavra de Deus’, a manipularem as pessoas, os fatos e os sermões...

Teólogos para tantas coisas... Coisas que nos faltam. Coisas que ainda estão por fazer, desfazer, ver e rever... Teólogos para ressignificar a Teologia e a igreja. Teólogos para construir Teologias sadias e significativas. Teólogos para construir uma Teologia prática, social e libertária.

Uma Teologia que nos liberte terminantemente das amarras cativas, do fundamentalismo, da sóciopatia, da in-tolerância burra, cega e odiosa que odeia tudo e todos sob o rótulo cínico e hipócrita de ser o ‘ungido de Deus’ que vai ‘pregar a verdade’, doa a quem doer “proclamando que não devemos nos contentar com as 'coisas desse mundo', e que devemos ficar atentos para não nos acovardarmos diante das ‘coisas erradas’ da sociedade, sendo conivente e compactuando com o mal, sob o rótulo da tolerância”.

Portanto, amadas irmãs e amados irmãos, Teólogos para quê?
Penso eu: Teólogos para antes de tudo, se perguntarem:
‘- Teólogo Por quê?

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